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sábado, 20 de agosto de 2011

O Gabinete do Dr. Caligari


Clássicos do Cinema - 1920
Este é certamente um dos filmes mais importantes da história do cinema. Um influenciador de gerações. Um trabalho que marcou época e é assistido com interesse e atenção até os dias atuais. O primeiro filme de terror! Marco do cinema expressionista alemão, "O Gabinete do Dr. Caligari" impressiona por sua estética inovadora, seus cenários de ruas tortas e sinuosas e sua atmosfera macabra impregnada de mistério. Lançado na Alemanha em1920, ganhou fama internacional e tornou-se um clássico do cinema internacional. Hoje, é considerado um dos melhores produtos da cultura cinematográfica do século XX. A ação principal de "O Gabinete do Dr. Caligari" tem a sua gênese no relato do herói, Francis, sobre as aventuras do Dr. Caligari, um vigarista soturno que dirige um manicômio, e do seu escravo, um estranho morto-vivo. Neste filme, Caligari acaba por enlouquecer, invertendo-se na lógica maniqueísta: torna-se bom e chega a ajudar o herói do filme. Este filme foi o mote para o expressionismo alemão, de onde nos chegaram outras obras sinistras como Nosferatu, O Vampiro do grande Werner Murnau (1922), a primeira adaptação do romance Drácula, de Bram Stoker. A realização do "Gabinete" é de Robert Wiene. Clássico absoluto do cinema!
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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Cão Danado


Clássicos do Cinema - 1949
Murukami, um jovem investigador de homicídios, é roubado em um ônibus e perde sua pistola. Ele começa uma busca insana atrás de sua preciosa arma, sem sucesso, até receber a ajuda de um sábio e mais experiente detetive chamado Sato. Só que as razões para tudo ficam mais sensíveis e dramáticas quando Murukami descobre que o ladrão só entrara para esse perigoso mundo do crime pelo desespero da necessidade humana. Clássico noir do mestre Akira Kurosawa, que redefiniu o padrão de filmes policiais japoneses.
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sábado, 9 de julho de 2011

Blow-Up - Depois Daquele Beijo


Clássicos do Cinema - 1966

"Blow-up - Depois Daquele Beijo" (Blow Up, 1966), do diretor italiano Michelangelo Antonioni é uma adaptação do conto "As Babas del Diablo" (1959), do escritor argentino Julio Cortázar (que aparece no filme, como mendigo, em uma série de fotos que farão parte de um livro). No filme, o fotografo Thomas (seu nome não aparece no filme, apenas no roteiro) é um profissional renomado. Fotografa moda e prepara um livro de imagens sobre sua cidade, a Londres dos anos 60 do século XX. Certo dia, Thomas fotografa uma jovem num parque, ela está abraçada com um homem mais velho. Ela não gosta da atitude de Thomas, segue o fotografo até sua casa e oferece seu corpo em troca das fotos. Thomas lhe dá um cartucho vazio. Intrigado, ele amplia as imagens e percebe angústia no rosto dela durante o abraço no parque. Com mais uma ampliação, descobre alguém escondido nos arbustos com uma pistola. Acredita que conseguiu evitar um assassinato. Volta ao parque e descobre um cadáver, mas percebe que se esqueceu de levar sua câmera fotográfica, o impedindo de registrar o fato. No dia seguinte, volta ao local e descobre que o cadáver havia desaparecido. O filme termina numa cena famosa em que Thomas devolve uma bola de tênis imaginária à um grupo de jogadores verdadeiros. Depois disso o próprio Thomas desaparece, deixando ao espectador apenas a imagem do parque. Antonioni se fascinava com o fato de Cortazar haver empregado a ampliação fotográfica (blow-up, em tradução livre significa isso: "ampliação fotográfica")para averiguar a realidade. Estes os elementos do conto que Antonioni utiliza em seu filme: 1] descobrir através da fotografia; 2] a ilusão de poder evitar um crime e; 3] o impacto psicológico de dar-se conta de suposições errôneas. No meio de sua investigação, Thomas se "entretem" com sexo, drogas e compras compulsivas. Para muito além da aparência de felicidade e realização do fotógrafo célebre e rico (tem um Rolls Royce), com belas modelos a seus pés (sexualmente), a realidade é vazia, tediosa. Nada disso resolve. Todos os personagens, Thomas apenas é o mais expressivo deles, não conseguem enfrentar os problemas, suas vidas são desconversas, incapacidade de ouvir os outros e uma constante procura de ersatz, substitutivos da realidade entediante via, inter alia, drogas e sexo, pois são todos prisioneiros de convenções e regras sem sentido. Thomas não é nenhum herói hollywoodiano que descobre uma trama e a investiga até o fim por um senso de justiça. Nem sequer investiga até o fim. Investiga por que este ato é uma fuga temporária da rotina que sabe temporária, mas é uma sensação nova, lhe traz um breve senso de vida. Entretanto, tudo o que se vê é que nada, nem a tríade sexo, drogas e rock'n'roll, tão comuns na "swinging London" dos anos 60, modelos de rebeldia e contestação de uma época são suficientes para livrar os personagens da prisão do social. A propós: David Hemmings perfeito!

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

No Tempo das Diligências


Clássicos do Cinema - 1939
A forma única e complexa com que John Ford tratava a concepção de seus personagens seja talvez o que tenha feito seu nome tão grande e alvo do culto de inúmeros amantes do cinema, mais notavelmente as gerações seguintes de cineastas que vão desde Orson Welles, passando por Martin Scorsese e indo até os dias de hoje. Temos a maior prova disso em Tempos das Diligências que, além de tudo, também sentenciou o renascimento do gênero faroeste, que apenas se preparava para atingir seu auge justamente nas mãos desse fantástico diretor. De quebra, ainda temos a revelação do talvez maior astro desse gênero de todos os tempos: o ator John Wayne.
O filme é um clássico inquestionável. As experimentações visuais feitas por Ford viriam marcar e consolidar um novo método de filmar. O exessivo uso de locações externas, as tomadas em longa distância e em profundidade, a demonstração da fragilidade de um grupo de pessoas em meio a uma paisagem extensa, tudo isso são algumas das técnicas popularizadas em Tempo das Diligências. Isso sem contar o estratégico uso da iluminação, em que o preto-e-branco garante drama, nostalgia, beleza ou qualquer outra atribuição na medida certa. Marcas registradas de Ford, aparecendo inclusive em várias outras obras sua como O Homem que Matou o Facínora (1962) e Rastros do Ódio (1956).
Quando nove diferentes personalidades são colocadas em uma diligência rumo à uma perigosa jornada, seus defeitos e principalmente suas qualidades são postas em perspectiva, e agora, todos devem encarar suas diferenças e superá-las. Chama a atenção a profundiade encontrada em cada uma dessas nove pessoas.
Em primeiro lugar, somos introduzidos ao forte conservadorismo existente na sociedade americana sob a visão do diretor John Ford. O controverso médico Doc Boone, incrívelmente interpretado pelo ator Thomas Mitchell, é escorraçado da cidade por ser um bêbado pelas ''damas da lei e da ordem''. Junto com ele está Dallas (Claire Trevor), acusada, nas entrelinhas, de indecência. A identificação que um tem com o outro vai muito além do afeto mútuo quase familiar demonstrado durante a jornada: não aceitos pela sociedade por não terem o comportamento moral exigido seguido à risca, não deixam de mostrar seu valor e seu próprio senso de bondade. E tal bondade atinge em cheio o conservadorismo da determinada Sr. Mallory (Louise Platt) que, mesmo convencida ao fim, reconhece que o resto do mundo ainda não pensa como ela.
Talvez a personalidade mais difíci de se classificar seja o enigmático Hatfield de um incrível John Carradine. Apesar de ser um jogador, é bastante fiel em suas crenças. É determinado em seguir o que parece ser uma moral própria, aqui representada por um desejo em proteger a Sr. Mallory. Tudo isso é confirmado quando, ao ver a iminente vitória dos índios pela janela, deseja usar sua última bala para poupa-la do sofrimento e da humilhação.
Mas o maior destaque vai mesmo para o astro principal, John Wayne. Viria a pintar o modelo de personagem que seguiria em seus outros faroestes: um homem rude e simples, valente e rápido no gatilho, mas com um senso de heroísmo inegável. E apesar do que pode parecer, Ringo Kid não é um simples estereótipo, não é um herói comum. Ele é um prisioneiro fugitivo que apenas deseja vingar sua familia, mas acaba se apaixonando por uma prostituta e indo até as últimas consequências junto dela.
Ainda temos um xerife destemido e boa-gente, Curly, o corpulento e cômico condutor, Buck, um vendedor de whisky moralista, Peacock, e um banqueiro que foge com o dinheiro de seus clientes, Gatewood.
A todo momento o grupo é desafiado pela ameaça dos índios. Para a minha própria surpresa, eles não são os vilões e não tem seu valores questionados, apenas representam um perigo regional necessário como se representassem animais. E temos em seu ataque à diligência uma incrivelmente filmada sequência de ação, que é tão empolgante quanto realista. Definitivamente, o melhor momento do filme.
Ao estabelecer uma verdadeira fundação para o gênero com esta realização, Ford nos trouxe muito mais que um faroeste ou road-movie. Podendo ser apreciado pelos mais diversos pontos de vista, não deixa de lado os divertidos elementos do clássico bangue-bangue. Irá se surpreender aquele que espera encontrar um filme cheio de clichês: da construção de seus personagens centrais ao duelo final, o tratamendo dado pelo diretor é diferenciado. Um verdadeiro clássico, sobretudo por marcar o início de uma das maiores e mais profílicas colaborações ator-diretor de todos os tempos, a tão famosa parceria Wayne-Ford. É uma experiência obrigatória para qualquer fã de cinema. (Comentário de William Munny - http://www.cineplayers.com/comentario.php?id=25102). Vejam até que ponto pode chegar o fanatismo pelo cinema e seus personagens: o comentarista usa o pseudônimo do protagonista de "Os Imperdoáveis" (Clint Eastwood)...
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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

La Dolce Vita


Clássicos do Cinema - 1960
Marcello Rubini é um jornalista de escândalos que aspira tornar-se um escritor "sério", respeitado. Vivendo uma vida boêmia, ele frequenta a alta roda da sociedade italiana da década de 60, desde os meios aristocráticos até aos cinematográficos. As suas aventuras e desventuras servirão de veículo a uma profunda reflexão sobre a sua vida e a realidade que ele, no fundo, tenta esconder de si mesmo. Considerada por muitos como uma das grandes obras cinematográficas de todos os tempos, "La Dolce Vita" (A Doce Vida), apresenta-se, antes de mais nada, como uma metáfora da vida, mais precisamente da vida na sociedade moderna como a conhecemos até ao presente. Esta obra é considerada o ponto de transição do cinema de Fellini do Neo-Realismo (que dominou o cinema italiano do Pós-Guerra até o início da década de 60) para o Simbolismo. A abertura do filme nos remete à uma paisagem de paredes em ruínas, onde um helicópetro transporta pendurada uma enorme estátua do Cristo Redentor, seguido por outro no qual vão os jornalistas que fazem a cobertura do evento. Decadência e Modernidade, lado a lado. Daí em diante, a cena aérea percorre boa parte de Roma desde os subúrbios efervescentes de novas construções, sobrevoando as coberturas luxuosas da alta burguesia da Cidade Eterna, onde mulheres seminuas nas piscinas acenam ao helicóptero, com a tour terminando na eslendorosa Praça de São Pedro, no Vaticano. Simbólica e esteticamente, estas são as cenas mais "amenas" do filme, embora encubram sob o manto simbólico todo o significado real do filme e da expressão "La Dolce Vita" que consubstanciava, originalmemte, a decadência e a imoralidade da high society. Afinal, como dito por Salmanazar desta cena: "pedra voa sobre pedra e pousa em pedra com nome de pedra" (São Pedro, para os mais lentos de raciocínio). De cara, vemos um despedir-se de um passado que se não era plenamente belo, engendrou junto com a tradição judaica e o legado helenista, as raízes do humanismo. Este passado é relegado ao que já foi o pulsante centro nervoso, por assim dizer, do Ocidente e hoje é uma instituição ossificada, desmesuradamente ajustada e apegada ao mundo decadente que supostamente deveria condenar. Hoje, a expressão "La Dolce Vita" transmite ou melhor tenta transmitir a idéia de "joie de vivre", de prazer intenso, de que o mundo pode ser um eterno reino de prazer sensorial (no Brasil, é nome até de pizzaria e condomínio de luxo). Tal significado praticamente não engana ninguém, nem mesmo os escribas de plantão que tentam impingir esta Doce Vida de araque, pois só se desilude quem se iludiu, traindo a si mesmo. A personagem de Marcello, brilhantemente interpretada por Marcello Mastroianni, muito bem secundado pela competentíssima Anouk Aimée e pela langorosa e sensual Anita Ekberg, é o típico indivíduo recluso de uma sociedade que fornece constantemente novos e diferentes aliciantes que servem, acima de tudo, para esquecer ou remediar a triste existência que se leva neste mundo. Alienado - ou esforçando-se por alienar-se - dos dramas humanos que vive, Marcello é o representante de uma larga faixa da sociedade que foge de si mesma tentando viver tudo de um só golpe. Toda uma vida num rompante, sem pensar em muito mais. Da mesma forma que a religião é (era?) o ópio do povo e tenta-se nesta encontrar a justificação para os erros da nossa existência, a sociedade laica dos tempos que correm (e corriam), à falta da religião, escuda-se noutras formas de alimentar o ego humano e fazê-lo esquecer, constantemente, que, antes de mais nada, ele é apenas... humano, independentemente do que isso seja! Frequentemente, nossa humanidade é usada como uma desculpa para nossas faltas, um subterfúgio que nos permite fugir à responsabilidade do que somos, do que nos tornamos. Essa foi, inclusive, a grande batalha do existencialismo, particularmente em Sartre e Merleau-Ponty; mostrar ao Homem que ele é o grande responsável por si mesmo, pelo que ele é e pelo que será. Não existe uma essência pré-determinada. Nesse ponto, o cinema de Fellini apresenta parentesco com o existencialismo. Em "La Dolce Vita", Fellini faz uso da fotografia e de uma concepção cenográfica especial para criar um ambiente de sonho, belo, como oposição à triste e deprimente realidade que as personagens vão vivendo. Tal dualidade é usada de forma exígua para fazer passar a intensa mensagem de toda a obra contribuindo, e muito, para abrilhantar ainda mais uma história, já de si, magnífica. A realização é, como é costumeiro em Fellini, brilhante. O desempenho dos atores é extraordinário - Mastroinanni era um monstro sagrado, um dos maiores atores de todos os tempos - assim como todos os demais pormenores técnicos do filme, desde a cenografria, passando pela fotografia e acabando no figurino. Tudo se mistura de uma forma perfeita em que o resultado final é, para usar novamente uma expressão muito cara ao escritor Marques Rebelo,"ao fim e ao cabo", superior às partes. Resta referir, a título de curiosidade, que este filme possui várias cenas inesquecíveis tal é o seu uso até aos dias de hoje como fonte de inspiração não só a outros filmes como igualmente em termos publicitários por exemplo. Um outro fato interessante é que o tão difundido, em nossos dias, termo "paparazzi" deriva deste filme, mais especificamente da personagem Paparazzo (Walter Santesso), um fotógrafo a serviço de Marcello que se dedica a tirar fotografias do jet-set da década de 60. Concluindo, "La Dolce Vita" é um dos mais belos e extraordinários filmes alguma vez feitos. Com uma atualidade surpreendente e abordando uma temática que a todos diz respeito, esta obra é aconselhável a toda e qualquer pessoa que goste, nem que só um pouco, de cinema. Justamente premiado com a "Palma de Ouro" no Festival de Cannes. Claro, a crítica social é tão forte neste fime, que apesar de nomeado a 4 Oscares, "La Dolce Vita" só venceu na categoria Melhor Figuro (guarda-roupa, como dizem em Portugual, e, nos países de língua inglesa, wardrobe). A Academia não teria coragem naquele período de premiar de forma ostensiva um filme que arrasa com os fundamentos tacitamente aceitos e mantidos pelo Establishment de todos os países, pricipalmente no país campeão da manutenção do status quo, da sociedade vazia que mede as coisas pelo seu valor financeiro! Algumas palavras finais provavelmente não serão muito bem aceitas pelos amantes de Fellini e sua obra, principalmente após tantos elogios. Entretanto, o diretor tinha suas limitações intelectuais e culturais e, basicamente a vida toda, trabalhou e retrabalhou uma mesma idéia, um mesmo conceito filosófico, praticamente o clichê do século XX: a vida é triste e não corresponde absolutamente aos nossos desejos e à concepção que dela fazemos inicialmente e ao longo da torrente da vida vamos constatando esta triste verdade. Nada disso invalida o valor da sua obra, pois, simultaneamente, o cineasta transcendia a si mesmo e à sua simples concepção, provavelmente derivada do catolicismo tão fortemente impregnado na cultura italiana, criando uma das obras (em termos de carreira, de filmes realizados) mais valiosas do cinema, e uma obra-prima inegável, uma das maiores da chamada Sétima Arte, justamente porque, antes de mais nada, ao contrário de tantos diretores que pululam à nossa volta em cada esquina e na Meca hollywoodiana, Fellini era um Artista com A maiúsculo!
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

No Mundo de 2020


Clássicos do Cinema - 1973
"Soylent Green" é um filme produzido em 1973 que lida com os prováveis resultados que o futuro reserva à sociedade de consumo se nada for feito para controlar a devastação que ela impõe ao planêta. O ano, na verdade, é 2022 (sabe-se lá por quê, no Brasil, intitularam "No Ano de 2020". Quiseram arredondar, na certa...). No filme, baseado em romance de Harry Harrison, a cidade de Nova Iorque tornou-se superpovoada com cerca de 40 milhões de pessoas, a poluição fez a temperatura se elevar bastante e todos os recursos naturais foram destruídos, deixando a população inteira num estado de fome crônica e desesperança social total. A Soylent Company criou um novo produto alimentar, o Soylent Green. O detetive Thorn é encarregado da investigação do brutal assassinato de um dos dirigentes da companhia, o que o leva a descobrir uma conspiração na empresa, destinada a encobrir a terrível verdade sobre o Soylent Green. Como mencionado acima, os fins da década de 60 e princípios da década de 70 correspondem a um período de longas convulsões sociais e as descobertas mais recentes das ciências de estudo do meio-ambiente espalhavam nas consciências os primeiros pesadelos neo-malthusianos de superpopulação, e o esgotamento dos meios de subsistência constituíam prenúncio de um futuro mórbido e uma sociedade doente. Soylent Green "reconstrói" de maneira aterradora nas cenas iniciais e com um timing excepcional a completa degradação social a que seríamos teoricamente submetidos se as condições fossem (forem) mantidas. "Soylent Green" é um alerta de um possível esgotamento das forças contraditórias que mantém essa estrutura se reconstruindo e se mantendo. As consequências de um mundo no qual cada vez mais (pensem um pouco no predatório sistema produtivo chinês ou na resistência dos governos norte-americanos a compromissos internacionais mais fortes de luta contra a poluição e degradação ambientais e reflitam) os detentores dos mecanismos transformadores se importam menos com os próximos e mais com o consumo desenfreado e a elevação de status individuais. Um grande filme de grande teor reflexivo e de final fascinante. Então? Vão ficar parados enquanto o mundo do amanhã é inviabilizado para nossos filhos e netos ou vão tomar partido em favor da vida? É melhor nos decidirmos logo, meninos. Antes que seja tarde demais. "Soylent Green" pode não ser relacionado nas grandes seleções de filmes de todos os tempos que andam por aí, mas para mim é um imperdível e eterno clássico do cinema!
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

12 Homens e uma Sentença


Clássicos do Cinema - 1957
Doze jurados devem decidir se um homem é culpado ou não de um assassinato, sob pena de morte. Onze têm plena certeza que ele é culpado, enquanto um não acredita em sua inocência, mas também não o acha culpado. Decidido a analisar novamente os fatos do caso, o jurado número 8 (Henry Fonda) não deve enfrentar apenas as dificuldades de interpretação dos fatos para achar a inocência do réu, mas também a má vontade e os rancores dos outros jurados, com vontade de irem embora logo para suas casas. Um clássico do cinema, com magnífica atuação de Henry Fonda, que mostra como um homem nunca deve desertar de sua consciência para merecer ser chamado de humano e como os sistemas judiciários apresentam vícios de origem e distorções que podem arruinar a vida de pessoas inocentes, bem como quão importante é a isenção e o comprometimento do corpo de jurados com a verdade. Em adição a tudo isso, o tema do filme poderá sempre servir de forte argumento contra a pena de morte: a única sentença que é totalmente definitiva. Em tempo: no Rio de Janeiro (isso que eu sei, por matéria lida em jornal; desconheço a situação em outros estados brasileiros) existe a figura do "jurado de carreira", isto é, pessoas que, regularmente, fazem parte de vários corpos de jurados, em casos criminais completamente diferentes entre si, ao longo de vários e vários anos. Como não existe no Brasil a convocação obrigatória pelos tribunais, os jurados são escolhidos entre os voluntários. Como poucos querem perder tempo com o que consideram não lhes dizer respeito, tendo ainda, como adendo nada atrativo, a enorme responsabilidade sobre o destino de um desconhecido, os poucos que se apresentam são quase sempre os mesmos... Andem na linha, brasileiros, senão o trem passa por cima...
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PS: Para quem possa não ter entendido a piada do trem passar por cima que apresenta o conselho contrário ao da piada original (sair da linha para não ser atropelado), queremos dizer que o trem da justiça no Brasil costuma andar fora dos trilhos, por isso é melhor a gente andar na linha, senão acaberemos diante de um júri "profissional", "de carreira"!


quarta-feira, 14 de julho de 2010

A Escolha de Sofia


Clássicos do Cinema - 1982
"A Escolha de Sofia" é um filme baseado no romance do grande escritor americano, William Styron, lançado em 1979 e que ganhou o "National Book Award", em 1980. O filme foi roteirizado e dirigido por Alan J. Pakula, conhecido principalmente pelo sucesso "Todos os Homens do Presidente", contando a história da investigação do "Caso Watergate" pelos jornalistas do "Washington Post", Edward e Bernstein, escândalo político que levou à renúncia o Presidente Richard Nixon. Entretanto, Pakula tem outros filmes de destaque (não tanto quanto "A Escolha de Sofia", que beira a perfeição, mas são filmes muito bons como "Klute: o passado condena", "A Trama", "Acima de Qualquer Suspeita" e bons como "O Dossiê Pelicano" e "Inimigo Íntimo". Na história contada pelo filme, em 1947, um jovem aspirante a escritor vindo do sul, Stingo (representado pelo, ainda jovem, Peter MacNicol - 28 anos), vai morar no Brooklyn na casa de Yetta Zimmerman (Rita Karin), que alugava quartos. Lá, conhece Sofia Zawistowska (Meryl Streep), sua vizinha do andar de cima, que é polonesa e fora prisioneira em um campo de concentração e Nathan Landau (Kevin Kline), seu namorado, um carismático judeu, desafortunadamente desequilibrado mentalmente e obcecado com o Holocausto. Em pouco tempo tornam-se amigos, sendo que Stingo não tem a menor idéia dos segredos que Sofia esconde nem da insanidade de Nathan. Sofia foi, na época da Segunda Guerra Mundial, forçada por um soldado nazista a escolher um de seus filhos para ser morto. Se ela se recusasse a escolher um, todos os filhos seriam mortos. Esta é triste história que é narrada ao jovem escritor pela mulher pela qual ele acaba se apaixonando, apesar de compromissada com Nathan. A história é narrada em flashback por Stingo. Meryl Streep que já despontara no teatro, ganhando um premio "Tony" e impressionara o público e a crítica em "O Franco Atirador", "Manhattan", "Kramer vs Kramer" (vencedora do Oscar e Globo de Ouro como Melhor Atriz Coadjuvante), "A Mulher do Tenente Francês" (indicada ao Oscar e vencedora do Globo de Ouro como Melhor Atriz, em 1982), teve atuação simplesmente impecável, recebendo o premio de Melhor Atriz no Academy Awards (Oscar) e Melhor Atriz em Filme Dramático no Globo de Ouro, no ano de 1983, consolidando a carreira feminina de maior sucesso no cinema americano. É espantoso: 1 premio Bafta como melhor atriz (maior premio do cinema Inglês, considerado o "Oscar" Britânico) e outras 12 indicações; 7 Globos de Ouro e outras 17 indicações e 2 Academy Awards (Oscar) e mais 14 indicações. Ufa! Um clássico inesquecível na literatura e no cinema.
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terça-feira, 13 de julho de 2010

O Sétimo Selo


Clássicos do Cinema - 1957
Após dez anos, um cavaleiro (Max Von Sydow) retorna das Cruzadas e encontra o país devastado pela peste negra. Sua fé em Deus é sensivelmente abalada e enquanto reflete sobre o significado da vida, a Morte (Bengt Ekerot) surge à sua frente querendo levá-lo, pois chegou sua hora. Objetivando ganhar tempo, convida-a para um jogo de xadrez que decidirá se ele parte com a Morte ou não. Tudo depende da sua vitória no jogo e a Morte concorda com o desafio, já que não perde nunca. O Filme, assim como toda a obra do diretor no seu início, é considerado neo-expressionista. Os cenários são muito rústicos e simples, a maquiagem é impressionante, e muitas vezes os atores aparecem machucados, ou com dentes podres, desprovidos de qualquer regra de higiene atuais, o que dá mais realismo ao filme. O título é uma referência ao capitulo oito do Livro das Revelações. O Século XIV assinala o apogeu da crise do sistema feudal, representada pelo trinômio "guerra, peste e fome", que juntamente com a "morte", compõem simbolicamente os "quatro cavaleiros do apocalipse" no final da Idade Média. A princípio uma peça teatral, dirigida por Bergman em 1955 e por Bengt Ekerot (ator e diretor renomado que interpretou a Morte em O Sétimo Selo),em Setembro do mesmo ano, já com Bibi Andersson no elenco. A encenação levada por Ekerot foi bem melhor recebida pelo público e crítica. Bergman, hospitalizado com problemas estomacais resolvera transformar o enredo em filme e o escreveu em seu leito no hospital. O Svensk Film Industri não gostou muito do script, mas depois do sucesso do seu filme "Sorrisos de uma Noite de Amor" que estreara nos cinemas suecos, pediram que Bergman levasse o projeto adiante com apenas 150 mil dólares de orçamento e 35 dias de prazo. Bergman retrabalhou o roteiro e, assim, "O Sétimo Selo" teve diversas mudanças e adaptações no script para, finalmente, se tornar o filme histórico que se tornou. Apenas alguns elementos foram aproveitados no roteiro final do filme: o medo da peste, a queima da feiticeira, a Dança da Morte. Mas a partida de xadrez entre a Morte e o Cavaleiro não havia, e, nem existia o artístico-bufanesco "santo casal" Jof e Mia com seu bebê. Somente Jons, o Escudeiro, não sofreu mudanças. Produzido em 1956 e estreando, na Suécia, em Fevereiro de 1957, tornou seu diretor famoso internacionalmente e um autêntico clássico do cinema internacional. A partir daí, Max von Sydow e Bibi Andersson viriam a se tornar, juntamente com Liv Ullman e outros poucos atores privilegiados, os eternos astros do cinema bergmaniano.
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quarta-feira, 7 de julho de 2010

A Paixão de Ana


Clássicos do Cinema - 1969
Poucos diretores compreenderam tão bem as complexidades das relações entre homens e mulheres, quão completos e complicados são os seres humanos, como Ingmar Bergman. Ele foi aquele cineasta que melhor apresentou uma insightful approach (tive de recorrer a outra língua para tentar expressar o que penso sobre a abordagem bergmaniana) sobre este intrincado relacionamento, as ambiguidades e especificidades do ser-com-o-outro, da rel-ação amorosa. Andreas vive sozinho numa ilha, até que um dia se envolve com Ana, uma misteriosa viúva. Eles passam a ser amigos de um casal vizinho, com quem partilham decepções e sonhos. Porém, segredos do passado de Ana e Andreas ameaçam a sua relação. Em seu segundo filme em cores, Bergman faz um retrato penetrante das relações amorosas, a partir de um complexo estudo psicológico de suas personagens. As atuações de Max von Sydow, Liv Ullman e Bibi Andersson são rigorosamente exatas e calibradas, como sempre. "A Paixão de Ana" é um dos três ou quatro grandes clássicos do cinema produzidos pelo cineasta sueco.
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Some Like It Hot


Clássicos do Cinema - 1959
Em 1929, Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon), dois músicos desempregados, testemunham sem querer o cruel Massacre do Dia de São Valentim (Valentine´s Day, o Dia dos Namorados nos Estados Unidos: 14 de fevereiro), chacina levada a cabo pelos homens do famoso gângster, Al Capone, líder da quadrilha que controlava o Lado Sul de Chicago (o qual se encontrava em sua mansão na Flórida, durante o ocorrido...), na qual, vestidos como policiais, forjaram uma batida policial numa garagem de estocagem de bebidas ilegais (estava em vigor a Lei Seca) matando sete homens, seis membros da quadrilha de "Bugs" Moran - controlador do Lado Norte de Chicago - e mais Reinhardt H. Schwimmer. Os corpos foram encontrados caídos ao lado de um muro da garagem da SMC Cartage Company (Rua North Clark, 2122) no Lincoln Park, Chicago, no Lado Norte da cidade. Desesperados para não serem pegos pelos gângsters, eles se disfarçam de mulheres e entram para um grupo feminino musical, que está indo para Miami fazer shows. Joe se apaixona por Sugar (Marilyn Monroe), a garota problema do grupo, enquanto um milionário se apaixona pelo disfarce de Jerry, tudo isso em meio a uma convenção de criminosos, que também está acontecendo em Miami. Traduzido no Brasil como "Quanto Mais Quente Melhor", "Some Like It Hot" é um grande clássico do cinema, com atuação perfeita do grande Jack Lemmon.
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

De Repente, no Último Verão

Clássicos do Cinema - 1959
John Cukrowicz (Montgomery Cliff), um neurocirurgião interessado em conseguir recursos para o hospital onde trabalha, conhece Violet Venable (Katherine Hepburn), uma rica senhora da aristocracia que quer mandar fazer uma lobotomia em Catherine Holly (Elizabeth Taylor), uma sobrinha supostamente acometida de crises de loucura. Na verdade, Violet teme que Catherine revele a homossexualidade de Sebastian, o filho de Violet, que morreu de forma violenta na Espanha. Há uma versão "oficial" do acidente, mas Catherine viu o que realmente aconteceu e assim sua tia tenta silenciá-la. Outro clássico do cinema de um diretor subestimado, Joseph L. Mankiewicz, muito maltratado pela cáustica crítica de cinema do New Yorker, Pauline Kael. Kael, como crítica disse muita bobagem, mas era uma observadora atenta. A partir da década de 80, quando se aposentou do jornalismo, afastou-se do cinema, cujo "empobrecimento estético e mental não tem fim", e dedicou seu tempo aos romances, à ópera, ao jazz, ao rock e ao rap. Morreu em 2001, aos 82 anos.
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Suplício de Uma Saudade


Clássicos do Cinema - 1955
Ambientado em Hong Kong durante a Guerra da Coréia, o filme narra a história de um correspondente de guerra americano (William Holden) e seu amor por uma linda médica eurasiana (Jennifer Jones). À medida que seu amor cresce, surgem problemas para atrapalhar sua felicidade. Ele deixou uma esposa em casa, e ela enfrenta a desaprovação de sua família e amigos. Na trilha sonora vencedora do Oscar, a canção título "Love Is a Many-Splendored Thing" tornou-se clássica, assim como este filme, baseado no romance "A Many-Splendored Thing" de Han Suyin e roteirizado por John Patrick, autor de roteiros que se tornaram filmes marcantes como "A Casa de Chá do Luar de Agosto", "Alta Sociedade" e "Deus Sabe como Amei" ("Some Came Running", nome original do livro de James Jones), entre outros .
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segunda-feira, 14 de junho de 2010

The Misfits


Clássicos do Cinema - 1961
"The Misfits" conta-nos a história de Roslyn Taber, recém-divorciada e deprimida, que conhece dois cowboys, Gay e Guido. Roslyn acaba por ir viver com Gay, mas apresenta dificuldades em adaptar-se à vida no campo. Bonita, sensual e ingênua, Roslyn não aceita que animais morram ou que sejam maltratados, como no rodeio que vai assistir com Gay e Guido, ou principalmente, quando descobre que os cavalos Mustang caçados por Gay e os seus amigos serão vendidos para serem abatidos. Com um elenco que inclui Marilyn Monroe, Clark Gable, Montgomery Clift, Eli Wallach e Thelma Ritter, "The Misfits" é um daqueles filmes que entraram diretamente para a história através da porta da lenda. E por lá ficaram. Há, desde logo, uma razão trágica para isso: Clark Gable viria a falecer, ainda em 1960, pouco depois da conclusão das filmagens e antes do lançamento do filme nos cinemas; Marilyn encontraria a morte trágica, auto-inflingida por seus demônios interiores, em 1962 (o filme "Something Got to Give", sob a direcção de George Cukor, nunca foi concluído, devido a sua morte); o próprio Montgomery Clift, ator de extremo talento, formado pelo Actors Studio, entraria num acelerado processo de decadência física e profissional, tendo falecido prematuramente em 1966, quando tinha apenas 45 anos. Mas não é só por isso que "The Misfits" é um objeto terminal. O argumento de Arthur Miller, então ainda casado com Marilyn, organiza-se como uma parábola de profunda mágoa poética sobre um tempo que termina: em algum lugar, no deserto do Nevada, aquele grupo de personagens à procura de cavalos selvagens são como os derradeiros e irrecuperáveis heróis de uma época de glória. Miller e Marilyn separar-se-iam no final da filmagem. Pelo menos em relação a esse filme os tradutores portugueses achariam um título mais adequado que o utilizado no Brasil - usualmente é o contrário o que acontece. "Os Inadaptados" (aqui intitulado "Os Desajustados"). É semelhante, mas não é a mesma coisa. Efetivamente é de inadaptação que se trata aqui. Inadaptação a um novo modo de vida que começa, encerrando um tempo de glória. Esse tempo de glória, outrora tão repleto de tradições, encontra-se agora agonizante, cercado pelo conformismo e pela apatia. Tenta-se ainda, num derradeiro esforço, alcançar a felicidade. Mas esta teima em fugir, diluindo-se na imensidão de um deserto, num lugar qualquer de Nevada. A perseguição aos cavalos rapidamente se revela incongruente e desnecessária para quem conserva ainda a ilusão da possibilidade dessa felicidade. E é essa descoberta que tanto nos emociona naquele epílogo – a liberdade é essencial para quem deseja ainda ser feliz. Se existe um filme que merece ser eternamente cultuado, este filme provavelmente seja o clássico "Os Inadaptados", de John Huston.
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terça-feira, 11 de maio de 2010

Um Dia de Cão


Clássicos do Cinema - 1975
"Um Dia de Cão" (Dog Day Afternoon) aborda um acontecimento real, ocorrido em 22 de Agosto de 1972. Um assalto em um banco no Brooklyn chama a atenção da mídia e transforma-se em um show com uma enorme audiência. Era um roubo que teoricamente duraria apenas dez minutos mas, após várias horas, os assaltantes estavam ainda cercados com reféns dentro do banco. Sonny (Al Pacino), o líder dos assaltantes, planejou conseguir dinheiro para Leon (Chris Sarandon), seu amante homossexual, fazer uma cirurgia de mudança de sexo. Sonny e Sal (John Cazale), seu companheiro de assalto, são tão ingênuos como assaltantes que seu planejamento praticamente não existe, eles não pretendiam ferir ninguém e nem sabiam exatamente como roubar um banco. Deles emana somente, pelo lado de Sonny, o drama humano de uma relação amorosa condenável pela sociedade da época de forma muito mais intensa do que hoje e, da parte de Sal, um tipo sombrio, de comportamento misterioso, do qual nem ao menos conseguimos saber por que se envolve na tentativa de roubo. Um tipo de ser humano que não sabemos exatamente por que se torna naquilo que se torna. Enquanto tudo se desenrola, a multidão apóia e aplaude as declarações de Sonny e se mostra contrária e até hostil ao comportamento da polícia. Com uma montagem ágil e a ausência de música, normalmente utilizada para enfatizar a dramaticidade dos acontecimentos, "Um Dia de Cão" é um filme que não se utiliza de efeitos especiais ou violência extremada. Não há velocidade de movimentos, nem reviravoltas inesperadas. Não conseguimos desviar os olhos da tela e das magistrais atuações de Al Pacino (indicado ao Oscar de Melhor Ator, neste ano, novamente, como já fora com sua atuação em "O Poderosos Chefão" e "Serpico" e do altamente promissor, John Cazale, que morreu de câncer no estômago, poucos anos depois, tendo atuado em apenas oito filmes. Existe em "Um Dia de Cão" uma delicada e laboriosa construção que parte de umas poucas informações esparsas (não se entende exatamente o que está acontecendo, no começo) e, gradualmente, a mente do espectador vai montando a figura maior, com o ajuntamento lento e linear dos fatos e informações. Não que a compreensão seja dada de bandeja, mastigada como é costume em Hollywood, ela é conquistada pela inteligência e atenção do espectador. Sem os apelos experimentais de seus colegas inovadores dos anos 70, Lumet criou, a partir de um evento da vida real, mais uma obra-prima do cinema, como fizera, dois anos antes, juntamente com Al Pacino no clássico policial "Serpico". O longa foi nomeado ao Oscar de Melhor Filme de 1976. Embora não tenha ganho, este grande drama, que tornou-se um grande clássico do cinema, venceu como Melhor Roteiro Adaptado. Teve ainda as indicações de Melhor Ator (Al Pacino), Melhor Ator Coajuvante (Chris Sarandon), Melhor Diretor (Sidney Lumet) e Melhor Montagem. Al Pacino foi contemplado com o prêmio de Melhor Ator no Bafta - 1976 (o equivalente britânico do Oscar).
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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Apocalypse Now


Clássicos do Cinema - 1979
Baseado na novela de Robert Conrad, "The Heart of Darkness" (O Coração das Trevas), "Apocalypse Now" erra no Atacado e acerta no Varejo, por assim dizer. O filme conta a história do Capitão Willard (Martin Sheen) que precisa se entranhar nas selvas cambojanas para assassinar o desertor do Exército Americano, Coronel Walter Kurtz, que supostamente enlouqueceu e tornou-se uma fonte de embaraço para a política americana no Sudeste Asiático, nos tempos da Guerra do Vietnã. O Coronel controla um grupo de fanáticos que perpetra massacres abomináveis em nome de uma filosofia obscura, defendida por Kurtz. O ponto de vista básico da novela de Conrad, embora elegantemente escrita (Conrad, ucraniano de nascimento, tornou-se cidadão inglês e manejava com destreza invejável aquela linguagem) era reacionário: Kurtz, o europeu que adentrava pelos rios com seu navio nas selvas africanas exercia o papel "civilizador" sobre os selvagens. A história de Kurtz é narrado pelo marinheiro Marlow, conhecido pelos leitores em outras obras de Conrad. Assim como o Kurtz de Conrad usava métodos insanos e deprimentes, o Coronel americano que é o seu clone histórico, reposicionado em outro continente, também percebe, capta, interioriza aquela indisfarçável torrente de insanidade existente dentro do ser humano e a devolve, transformada em violência louca, primitiva, pagã. O Coronel, já tendo descido aos abismos infernais, se encontra às portas da loucura - ao mesmo tempo em que vivencia uma espécie de epifania sobre nós mesmos e o nosso terrível interior, talvez uma visão do núcleo da nossa herança reptílica, que nos torna capazes dos piores atos - quando o Capitão Willard já levanta o machado que o matará, repete a célebre frase que supostamente (na novela de Conrad o horror aludido nunca é definitivamente explicado. Isso é deixado em aberto ao leitor, o que torna o efeito ainda mais intenso) delineava para o Kurtz original o que ele vira e experimentara e que ele balbucia em seu leito de morte: "Ah! The Horror, The Horror!" ("Ah! O Horror, o Horror!"). A dramaticidade deste balbucio em Inglês não encontra paralelo na língua portuguesa, apesar da palavra ser escrita com as mesmas letras em ambas as línguas. A tonicidade da pronúncia inglesa ressalta o aspecto sinistro da palavra de uma forma que não ocorre no Português. T. S. Eliot, admirador de Conrad e, particularmente, de "The Heart of Darkness", usou como epígrafe de seu poema "The Hollow Men", (algo assim como, "Os Homens Ocos" ou "Os Homens Vazios") a frase, dita num Inglês estropiado de homem africano do século XIX, "Mistah Kurtz, He Dead"(em Português, seria mais ou menos o seguinte: "O Sinhô Kurtz tá morto"), em alusão à novela conradiana. Kurtz, antes de ser assassinado por Willard, lera os versos imortais de Eliot, com destaque para a magnífica sonoridade da parte final da 1ª estrofe: "We are the Hollow Men, we are the Stuffed Men. Leaning together, headpiece filled with straw, Alas!"(Nós somos os Homens Ocos, nós somos os Homens Empalhados. Apoiados uns nos outros, nossos elmos cheios de palha, Amém!) - parte final da estrofe - "Our dried voices, when we whisper together are quite and meaningless. As wind in dry grass or rats feet over broken glass in our dry cellar" (Nossas vozes secas, quando juntos sussurramos, são silentes e sem sentido. Como vento na grama seca ou pés de ratos sobre vidro quebrado em nossa adega vazia**). Apesar das referências literárias de primeira, a começar pela fonte para o script, Coppola comete alguns erros, a começar por comparar a selvageria dos nativos africanos, de origem tribal, inocente de civilização, equiparando-a à americana que venho prontinha dos EUA, não lhes surgiu de repente no Sudeste Asiático (cujos países todos têm civilizações com uns poucos milhares de anos a mais que a Yankee). Não é à toa que, justamente por ser um bom diretor-produtor, Coppola contradiz a si mesmo quando em vez de refletir ou filosofar, simplesmente exerce o seu ofício de artista. Umas das mais elucidativas e antológicas cenas do filme se dá quando o Tenente-Coronel Kilgore resolve surfar com os soldados do seu pelotão na praia e, sendo atacados por vietnamitas, pede apoio aéreo que limpa a área de inimigos ao varrê-la com Napalm. Após o feroz ataque aéreo sobre as posições vietnamitas, Kilgore - sem camisa durante todo o desenrolar destes acontecimentos - declara aos soldados mais próximos que adora o cheiro de Napalm pela manhã "por que cheira a vitória". Não foi o que mostrou a História, mas aí já é outra "história". O importante, nesta cena, é a leviandade e a facilidade com que a letal e pesada máquina do maior arsenal bélico do mundo - o dos Estados Unidos da América - foi posta em movimento, para que os "rapazes" pudessem surfar. O Tenente-Coronel, o tempo todo sem camisa, em pé em meio ao tiroteio como se estivesse num parque de diversões, enquanto os recrutas se encolhem no chão, evitando os disparos inimigos, parece se sentir em casa ou realmente em alguma praia como Pipeline, Bilabong, Bells Beach or something else. Não Coppola, a violência americana é natural, faz parte da estrutura econômica, social e espiritual desta grande nação. Nisso, Francis Ford Coppola, longe de ter o talento dos mestres literários que o inspiraram nessa obra, acertou em cheio, criando um dos grandes momentos do cinema. Sem criar um filme realmente sobre a guerra ele conseguiu mostrar a verdadeira face da Guerra do Vietnã: "Ah! The Horror, the horror!"
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*Alas até onde sei, equivale a Amém, Assim Seja! Se algum conhecedor mais profundo do Inglês nos proporcionar uma tradução mais apropriada, agradeceremos.

** apesar de dry significar seca, ressecada, para efeitos de poesia, "vazia" traduz melhor, no meu modesto modo de ver, o sentido da frase em Eliot.



domingo, 2 de maio de 2010

O Estrangulador de Boston


Clássicos do Cinema - 1968
Uma a uma, as vítimas aumentavam... cada morte mais cruel do que a anterior. Os assassinatos reais, que chocaram Boston na década de 1960 são o assunto deste inesquecível filme de suspense policial. Henry Fonda protagoniza o filme como um investigador da polícia. Tony Curtis brinda-nos com uma magnífica interpretação no papel do psicopata que Fonda precisa expor. "O Estrangulador de Boston", adota o modo split-screen então em voga (também utilizado em "The Thomas Crown Affair"), para relatar a história verdadeira do assassino Albert DeSalvo. Adaptado por Edward Anhalt do livro de Gerold Frank, o filme cobre os anos de 1962 a 1964, durante os quais 12 mulheres são violadas e assassinadas na zona de Boston. Esta história horripilante e tocante da vida real é um dos mais subestimados filmes políciais sobre assassinos psicopatas, para não mencionar que é com certeza um precursor interessante de modernos contos de ficção, como "O Silêncio dos Inocentes" e "Seven". "O Estrangulador de Boston" continua potente, válido e atual, mesmo para os padrões modernos, pois atinge o equilíbrio certo entre mostrar os horríveis detalhes e deixar as coisas para a imaginação do espectador. Mesmo não aparecendo até que o filme chegue ao meio, o retrato hábil de Tony Curtis de um homem que não consegue entender o lado monstruoso da sua própria mente é tão devastador como é assustador. O filme é narrado num estilo quase documental por Richard Fleischer, que três anos mais tarde voltaria a adaptar outra história verdadeira de um serial killer, em "10 Rillington Place". Um verdadeiro clássico do cinema. Existe uma segunda versão de "O Estrangulador de Boston", produzida em 2008.
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domingo, 18 de abril de 2010

Coração Selvagem


Clássicos do Cinema - 1990
Lula Pace Fortune (Laura Dern) e seu amante, Sailor Ripley (Nicolas Cage), fogem pelas estradas que unem a Carolina do Norte ao Texas. Ela tem 20 anos e se descreve como mais quente que o asfalto da Georgia . Ele é um jovem violento que estava preso por matar um homem e acaba de ganhar liberdade condicional. Ambos têm um passado conturbado, o que torna mais intensa a relação entre os dois. Possessiva e histérica, a mãe de Lula (Diane Ladd) jura que os dois nunca ficarão juntos e põe o detetive particular Johnnie Farragut (Harry Dean Stanton) e o gângster Santos (J.E. Freeman), seu amante, no encalço do casal. Road movie com o toque surreal de David Lynch. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1990.

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quinta-feira, 18 de março de 2010

Os 39 Degraus

Clássicos do Cinema - 1935
Considerado como o expoente máximo da fase britânica, este clássico hitchcockiano retrata a perseguição selvagem contra um homem, envolvido numa trama de espionagem e mistério que lutará com todas as suas forças para provar a sua inocência. O herói dessa história é um simpático cidadão, meio desajeitado, mas corajoso, Richard Hannay (Robert Donat) que, passando as férias em Londres, conhece uma mulher misteriosa que lhe conta algo sobre o caso de um homem que está sendo perseguido por envolvimento em uma trama de espionagem. Entretanto, pouco depois disso, ela é assassinada e Hannay, mesmo correndo perigo de vida, decide resolver o mistério. Em "Os 39 Degraus", Hitchcock exibe com sutileza e maestria o domínio completo da linguagem cinematográfica. A partir deste filme, Hitchcock passava a ser um grande nome do cinema mundial, não apenas da Ingaterra. Um clássico do cinema, um clássico hitchcockiano.
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terça-feira, 2 de março de 2010

Bullitt


Clássicos do Cinema - 1968
Para o frio detetive Frank Bullit aquela parecia ser outra missão de rotina: proteger durante 48 horas a principal testemunha contra o sindicato do crime, entregando-a a salvo no tribunal, na manhã de 2ª feira. Se tudo corresse bem, sua carreira estaria em plena ascensão, garantiu o ambicioso político Walter Chalmes (Robert Vaughn). Mas tudo deu errado. Antes do anoitecer, a testemunha é vítima de um violento atentado, e agora está entre a vida e a morte. Bullit, vivido pelo arrojado e inesquecível Steve McQueen, é um policial destemido, à procura dos responsáveis por este crime covarde, e da verdade escondida nos fatos. E a lista de suspeitos é imensa: parece que todos tinham interesse em eliminar essa testemunha. Dirigido por Peter Yates, e ele mesmo um ex-piloto de automóveis, Bullit é considerado um clássico entre os modernos filmes policiais, por sua antológica cena da louca perseguição de carros pelas íngremes ladeiras de São Francisco. Com Steve McQueen, guiando ele próprio seu Mustang GT, às vezes atingindo velocidades acima dos 180 km/h. A vertiginosa montagem de Frank Keller, o diálogo curto e nervoso, a música tensa, e as excelentes atuações de Jacqueline Bisset como Cathy, a bela namorada de Bullit e Robert Duvall nos papéis secundários, fazem de Bullitt uma obra-prima do cinema policial e um clássico do cinema mundial.
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